quarta-feira, 29 de agosto de 2012

com os dentes cravados na memória



Bolero Blue

beber desse conhaque
em tua boca
para matar a febre
nas entranhas
entre os dentes
indecente
é a forma que te bebo
como ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra
palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai.

Além das centenas de felicitações pelo meu aniversário nesta segunda 27, duas notícias recebidas ontem, enchem ainda mais minha semana de alegria:

1 – Saber que vídeo comigo falando este poema acima está no Museu da Língua em São Paulo
2 – Convite do Portal Porta Curtas, para julgar 29 filmes do Festival de Curtas de são Paulo


Fulinaimagem
1

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca
a afiar os verso que ainda não fiz
e as brigas de amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto
que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim admirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

2

o que trago embaixo as solas dos sapatos
bagana acesa sobra o cigarro é sarro
dentro do carro
ainda ouço jimmi hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama
a seda pura foto síntese do papel
tem flor de lótus nos bordéis copacabana
procuro um mix da guitarra de santana
com os espinhos da rosa de Noel

Artur Gomes
te convido para curtir fulinaíma produções

mãos que tecem redes e enfrentam o mar


 velho pescador do Pontal - Atafona - fotos: artur gomes
vivemos um tempo num país
em que homens que com suas mãos
tecem redes e enfrentam o mar
em busca do peixe/pão de cada dia
vivem entregues a própria sorte
que algum deus dará
e se não houver deus
não será sorte nenhuma
ou país nenhum terá
morrerá entregue a sua solidão
envenenados pela saliva das boiunas
que de 4 em 4 anos vomitam
de suas bocas cínicas palavras/promessas
pelos auto falantes do país
que nunca serão cumpridas

arturgomes – fulinaíma produções
mãos que tecem redes e enfrentam o mar
http://www.youtube.com/watch?v=ApVIfxbdaAM&feature=plcp

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pablo Neruda - 5 Poemas de Amor



Pablo Neruda na voz de Artur Gomes amanhã no Centro Cultural Luciano Bastos em Bom Jesus do Itabapoana-RJ

Se Me Esqueceres

Quero que saibas 
uma coisa. 

Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 

Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 

Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 

Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 

Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"



Corpo de Mulher...

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas 
                                                          [brancas, 
pareces-te com o mundo na tua atitude de 
                                                          [entrega. 
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti 
e faz saltar o filho do mais fundo da terra. 

Fui só como um túnel. De mim fugiam os 
                                                          [pássaros, 
e em mim a noite forçava a sua invasão 
                                                          [poderosa. 
Para sobreviver forjei-te como uma arma, 
como uma flecha no meu arco, como uma pedra 
                                                 na minha funda. 

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te. 
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme. 
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência! 
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e 
                                                          [triste! 

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça. 
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu 
                                                          [caminho indeciso! 
Escuros regos onde a sede eterna continua, 
e a fadiga continua, e a dor infinita. 

Pablo Neruda, in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"



Amor


Mulher, teria sido teu filho, para beber-te 
o leite dos seios como de um manancial, 
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te 
no riso de ouro e na voz de cristal. 

Para sentir-te nas veias como Deus num rio 
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal, 
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse 
e saísse na estrofe - limpo de todo o mal -. 

Como saberia amar-te, mulher, como saberia 
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém! 
Morrer e todavia 
amar-te mais. 
E todavia 
amar-te mais 
                           e mais. 

Pablo Neruda, in "Crepusculário" 
Tradução de Rui Lage



Grita

Amor, quando chegares à minha fonte distante, 
cuida para que não me morda tua voz de ilusão: 
que minha dor obscura não morra nas tuas asas, 
nem se me afogue a voz em tua garganta de ouro. 

                Quando chegares, Amor 
                à minha fonte distante, 
                sê chuva que estiola, 
                sê baixio que rompe. 

                Desfaz, Amor, o ritmo 
                destas águas tranquilas: 
sabe ser a dor que estremece e que sofre, 
sabe ser a angústia que se grita e retorce. 

                Não me dês o olvido. 
                Não me dês a ilusão. 
Porque todas as folhas que na terra caíram 
me deixaram de ouro aceso o coração. 

                Quando chegares, Amor 
                à minha fonte distante, 
                desvia-me as vertentes, 
                aperta-me as entranhas. 

E uma destas tardes - Amor de mãos cruéis -, 
ajoelhado, eu te darei graças. 

Pablo Neruda, in "Crepusculário" 
Tradução de Rui Lage


Sempre

Ao contrário de ti 
não tenho ciúmes. 

Vem com um homem 
às costas, 
vem com cem homens nos teus cabelos, 
vem com mil homens entre os seios e os pés, 
vem como um rio 
cheio de afogados 
que encontra o mar furioso, 
a espuma eterna, o tempo. 

Trá-los todos 
até onde te espero: 
estaremos sempre sozinhos, 
estaremos sempre tu e eu 
sozinhos na terra 
para começar a vida. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"


A convite de Paula Bastos Pró Reitora de Extensão do IFF, estarei amanhã no Centro Cultural Luciano Bastos, em Bom Jesus do Itabapoana, fazendo uma leitura dramática desses poemas acima do poeta chileno Pablo Neruda.


artur gomes
www.artur-gomes.blogspot.com

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Pontal Foto Grafia


fotos: Welliton Rangel e Artur Gomes

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar 
esquadras – descobrimento
espinhas de peixe 
convento
cabrálias esperas 
relento 
escamas secas no prato
e um cheiro podre no 
AR 

caranguejos explodem 
mangues em pólvora 
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem – 
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais 
telhados bóiam nas ondas 
tijolos afundando náufragos 
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra 
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas 
Jerusalém pagã visitada 
Atafona.Pontal.Grussaí 
as crianças são testemunhas: 
Jesus Cristo não passou por aqui 

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha 
cobra de vidro sangue na fagulha 
carne de peixe maracangalha 
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha? 
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco 
Atafona.Pontal.Grussaí 
as crianças são testemunhas:
Mallarmè passou por aqui 

bebo teu fato em fogo 
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro 
aluga-se teu brejo no mar 
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues 
que mar eu bebo afinal?

Artur Gomes In carNAvalha Gumes
http://www.goytacity.blogspot.com

Publicado na Antologia Ineternacional - Eco Arte Para Re-Encantamento do Mundo, organizada pela Bióloga Micelle Sato e editada pela Universidade Federal do Mato Grosso