terça-feira, 26 de março de 2013

oficina de produção de vídeo





Oficina de Produção de Vídeo

Um olhar jovem sobre as perspectivas de vida em
São João da Barra, a partir da construção do Porto
do Açu.  Projeto de um grupo de pesquisadores do CCH - UENF
Tendo como orientadora Drª Wania Mesquita
De 5 a 7 de Abril de 2013
Direção da Oficina: Artur Gomes



Pontal  Foto Grafia

Aqui, 
redes em pânico 
pescam esqueletos no mar 
esquadras - descobrimento 
espinhas de peixe convento 
cabrálias esperas 
relento 
escamas secas no prato 
e um cheiro podre no 
AR 

caranguejos explodem mangues em pólvora 
Ovo de Colombo quebrado 
areia branca inferno livre 
Rimbaud - África virgem 
carne na cruz dos escombros 
trapos balançam varais 
telhados bóiam nas ondas 
tijolos afundando náufragos 
último suspiro da bomba 
na boca incerta da barra 
esgoto fétido do mundo 
grafando lentes na marra 
imagens daqui saqueadas 
Jerusalém pagã visitada 
Atafona.Pontal.Grussaí 

as crianças são testemunhas: 
Jesus Cristo não passou por aqui 

Miles Davis fisgou na agulha 
Oscar no foco de palha 
cobra de vidro sangue na fagulha 
carne de peixe maracangalha 
que mar eu bebo na telha 
que a minha língua não tralha? 
penúltima dose de pólvora 
palmeira subindo a maralha 
punhal trincheira na trilha 
cortando o pano a navalha 
fatal daqui Pernambuco 
Atafona.Pontal.Grussaí 

as crianças são testemunhas: 
Mallarmè passou por aqui. 

bebo teu fato em fogo 
punhal na ova do bar 
palhoças ao sol fevereiro 
aluga-se teu brejo no mar 
o preço nem Deus nem sabre 
sementes de bagre no porto 
a porca no sujo quintal 
plástico de lixo nos mangues 
que mar eu bebo afinal? 


Artur Gomes

terça-feira, 19 de março de 2013

Karla Julia - Lua Nova




Primeiro Vídeo da Oficina de Poesia Falada, realizada de 4 a 9 de março com Karla Julia interpretando Lua Nova, poema do seu livro Alma Nua - Direção: Artur Gomes


Lua Nova

Nas noites em que custo a dormir,
escrevo, en-lou-que-ci-da-men-te.
E com meu anjo, crio pontes
através de meus poemas.

Não nos falamos, nossa voz corre em versos,
que se espalham através de nossa corrente sanguínea.
Junto a ele, emigrantes viramos, 
mal quero saber para onde vamos,
mas os deuses, que tudo nos contam, nos disseram...
nossas almas...são macho e fêmea.

Ele, que reza junto comigo, 
não se converteu.
Eu, que peço por ele, 
jurei por todos os séculos e séculos,
amém.
Bem sei que nunca teremos nosso réquiem.

Gosto disso... nossa poética é oculta.

Karla Julia
poema do livro – Alma Nua

segunda-feira, 4 de março de 2013

A Arte é o que resiste


 poesia visual fátima queiroz


A Arte é o Que Resiste.

Ela Resiste à Morte a Servidão e A Vergonha.
Gilles Deleuze


Ainda vai levar um bom tempo  para a humanidade compreender Arte e se beneficiar dela.  Alguns comentários que leio sobre o assunto me aterrorizam, principalmente por saber que no Brasil professores do ramo ainda se perguntam O Que é Arte? E pensam que uma simples ilustração seja Poesia Visual. E o que é mais aterrorizante é saber que em Escolas Municipais, Estaduais e Federais, professores são obrigados a darem notas para estudantes passarem de ano sem o cumprimento das mínimas exigências da LDB, contribuindo  dessa forma para a perpetuação desse Estado de Ignorância.


Federico Baudelaire

sexta-feira, 1 de março de 2013

Desordem



meu assunto por enquanto é a desordem
o que se nega
à fala

o que escapa
ao acurado apuro
do dizer
a borra
a sobra
a escória
a incúria
o não caber

ou talvez
- pior dizendo –
o que a linguagem
não disse
por não dizer

porque
por mais que diga
e porque disse
sempre restará
no dito o mundo
o por dizer
já que não é da linguagem
dizer tudo

ou é
se se
entender
que
o que foi dito
é o que é
e por isso
nada há mais por dizer

portanto
o meu assunto
é o não dito não
o sublime indizível
mas o fortuito
e possível
de ser dito
e não o é
por descuido
ou por intuito
já que somente a própria coisa
se diz toda
( por ser muda)

é próprio da palavra
não dizer
ou
melhor dizendo
só dizer
a palavra
é o não ser

isto porque
a coisa
( o ser)
repousa
fora de toda
fala
ou ordem sintática

e o dito (a
não coisa) é só
gramática

o jasmim, por exemplo,
é um sistema
como a aranha
( diferente do poema )
o perfume
é um tipo de desordem
a que o olfato
põe ordem
e sorve
mas o que ele diz
excede à ordem
do falar
por isso
que

desordenando
a escrita
talvez se diga
aquela perfunctória
ordem
inaudita

uma pera
também
funciona
como máquina
viva
enquanto quando
podre
entra ela ( o sistema)
em desordem:
instala-se a anarquia
dos ácidos
e a polpa se desfaz
em tumulto
e diz
assim
bem mais do que dizia
ao extravasar
o dizer

dir-se-ia
então
que
para dizer
a desordem
da fruta
teria a fala
- como a pera –
que se desfazer?
que de certo
modo
apodrecer?

mas a fala
é só rumor
e ideia
não exala
odor
( como a pera )
pela casa inteira

a fala, meu amor,
não fede
nem cheira


GULLAR,Ferreira, 1930 - "DESORDEM". In: Alguma parte alguma/ ; Apresentação Alfredo Bosi e Antonio Carlos Secchin. 2.Ed. - Rio de Janeiro: José Olympio,2010.p.p. 26, 27, 28, 29, 30